Capitulo 3

Sábado prometia ser diferente. Dia ensolarado, apesar do frio de dezembro. Samantha decide visitar seu pai, rever Dona Betinha, pois sentia muita a falta dela. Com o projeto em que estava trabalhando, não teve tempo nem para ligar e saber como estava. Cresceu em uma casa muito grande e bonita. Mas prefere seu espaço.
            Chegando na propriedade, aciona o interfone onde fala com o caseiro que então permite sua entrada por um caminho curto rodeado de algumas árvores antigas que a conduz a um pequeno jardim à frente da entrada. Sente-se aliviada quando avista Betinha parada em frente à porta, esperando-a. Dirige-se a ela subindo os degraus e lhe dá um abraço forte por alguns segundos:
            — Sammy!!! Que alegria ter você aqui para passar o fim de semana. Já esperava que viesse. Mas fiquei preocupada que dessa vez fosse encontrar algo melhor para fazer!
            — Claro que não Betinha. Como eu poderia?! Nessa época quero mesmo é passar com vocês, minha família!
            — Ah que alegria! Deixa me ajudar com isso.
            — Claro que não. Minha mala pode deixar que eu levo. A senhora não é minha empregada. E eu não sou nenhuma visita.
            — Como queira, minha querida! Vem, entra. Te acompanho até seu quarto. Ainda mantenho ele do jeito que você deixou. Nada fora do lugar.
            — Obrigada. Bondade sua.
            Entra olhando para os lados como se fosse sua primeira vez. Tomada de um silêncio que a impede de comentar ou perguntar qualquer coisa. A decoração é mesma de quando sua mãe era viva.
            — E papai?
            — Ele está no escritório. Sempre trancado lá com os negócios.
            — Ele sabe que eu cheguei? – Quando então ouve sua voz:
            — Sammy!! Filha!! Quem bom que você veio. – Se aproxima com os braços abertos e lhe dá um abraço, ao que Samantha reage apenas permitindo, deixando seus braços para baixo, sem soltar o que tinha nas mãos.
            — Oi pai. Tudo bem?
            — Tudo ótimo, meu anjo! Beth, leva as malas da menina para o quarto dela.
            — Sim senhor!
            — Não precisa. Eu mesma levo. – Responde tirando-as do seu alcance.
            — Besteira. – James retira as malas de suas mãos e as entrega à governanta. – Vem comigo. Temos muito que conversar. – Coloca o braço em volta de seus ombros e a conduz até seu escritório.
            — Wow! Você mudou as coisas por aqui! Se modernizou. Meus parabéns!
            — Você sempre me dizia que eu deveria. Até comprei um computador. Você não faz ideia de como isso me ajudou. Aceita uma bebida? – Vai até o carrinho de bebidas e prepara para si um copo de whisky puro.
            — Não, obrigada! Que bom que ajudou! Fico feliz.
            — Como está o trabalho? Alguma coisa nova?
            — Nada demais. Apenas o rotineiro.
            — Você sabe que gostaria de ter você comigo nos negócios da família...
            — Mas eu gosto do que eu faço. – Um silêncio momentâneo toma conta do ambiente. Eles se encaram, sem assunto...
            — Bom, tenho que dar uma saída. Mas não me demoro. – Suavemente lhe toca as costas e a conduz, saindo do escritório e tranca a porta. – Fique à vontade, afinal a casa é sua.
            Samantha caminha até a área de serviço para encontrar-se com Betinha. Anda pelos pátios da casa com cautela. Sempre os visita, mas essa é a primeira vez desde o início de seus sonhos. Alguma coisa não parece mais fazer sentido. A sensação de nostalgia que a fazia sentir-se bem, dessa vez a incomoda.
            A cozinha era seu ambiente preferido. Lembra-se de sempre comer doces e coisas gostosas que sua querida governanta preparava. Se sentava na cadeira do balcão e fica brincando com os ingredientes, balançando suas perninhas que não tocavam o chão.
            — Se lembra de quando você me ajudava a preparar docinhos? Não conseguia esperar eu terminar e comia tudo de colher mesmo!
            — Claro que lembro! Era sempre minha hora favorita do dia, quando eu passava tempo aqui com você “cozinhando”. Tinha que pedir para você me ajudar a subir nessa cadeira.
            — Ah! Você era tão pequenina! Veja só a mulher linda que você se tornou! Você se parece muito com sua mãe. Se estivesse aqui conosco hoje estaria muito orgulhosa de você!
            Nesse momento não sabe o que responder. Apenas sorri e olha para suas mãos acariciando os dedos:
            — E como está papai? Nem tive tempo de perguntar, ele já teve que sair.
            — Ah! Você sabe como ele é. Sempre ocupado. Ou está naquela sala ou no escritório da cidade..., mas ultimamente ele tem ficado mais tempo em casa, no escritório. Às vezes ouço que fala ao telefone.
            — Eu sei... – Continua com os dedos e Betinha continua mexendo com panelas.
            — Essa época é difícil para todos nós!
            — Imagino que sim!
            — Mas me fale de você! Como está a vida na cidade grande? Como está o trabalho?
            — Ah, está tudo bem.
            — Hum, não senti firmeza nas palavras!
            — É sério. Tudo bem no trabalho. Ontem fechamos outro negócio.
            — Que bom ver você fazendo o que gosta. E seu trabalho é tão importante... De grande responsabilidade.
            — Verdade!
            — Mas...?
            — Mas o que?
            — O que tem te incomodado? Me conta.
            — Ah Betinha. Você não deixa escapar nada né? Difícil explicar... Nem Cinthia soube me dizer.
            — Não precisamos entender. Só me conta como tem se sentido.
            — Certo..., mas não é nada demais. São só esses sonhos estranhos que voltaram...
            — Os da floresta?
            — Exato! Têm sido muito intensos ultimamente. Mas não é só isso... Há uns dias que venho tendo “sonhos” durante o dia; acordada. Quando vou ao trabalho, no banho. Ontem num barzinho com Didi também aconteceu. Sinto que algo, ou alguém me vigia. Sinto os sons e cheiros mais intensamente. – Betinha sem tirar os olhos da panela, pergunta:
            — E o que acontece nesses sonhos?
            — Normalmente só estou fugindo. Mas teve um deles em que eu me via feliz. Parecia que balançava para cima e para baixo. Eu via o chão e o céu.
            — Nós tínhamos um balanço no jardim quando você era pequena. Você adorava balançar nele. Sua mãe te empurrava e adorava as gargalhadas que você dava, gritando: “mais forte, mais forte”. Você não se cansava!
            — Eu não lembro disso. Por que não temos mais esse balanço?
            — Depois que Laura morreu, você nunca mais quis brincar lá. Então seu pai mandou tirar.
            — Talvez esteja relacionado. Não sei... Gostaria de saber porque não me lembro essas coisas e porque agora estou tendo esses sonhos.
            — Você vai se lembrar. – Toca seu braço. – Quando estiver pronta. Nem todas as respostas são claras e evidentes como esperamos. Foi uma situação traumática, para todos nós. E você era tão pequena... Nem toda criança passa por algo assim e consegue seguir adiante. – Antes que Samantha pudesse dizer mais alguma coisa: — Por que você não vai tomar um banho, relaxar da viagem enquanto eu termino de preparar o jantar? Escuta! Seu pai já voltou. Nos vemos na sala de jantar daqui a pouco. – James entra:
            — Aí estão vocês! Vejo que já estão passando tempo juntas! Hum! O cheiro está ótimo. Estou faminto e exausto.
            — Já vou preparar a mesa, senhor.
            — Ótimo! Vou tomar um bom banho e preparar uma bebida. Nos vemos no jantar.
            Samantha lhe acena em forma de confirmação:
            — Ok, também vou... até já!

Postagens mais visitadas deste blog

Capitulo 1

Capitulo 2