Capitulo 2
Tudo foi um sucesso. Reunião de negócios não poderia ter sido melhor. Clientes satisfeitos e contrato assinado. Donald está radiante pela empresa ter levado todo o crédito pelo que Samantha havia realizado. Com o sentimento de dever cumprido, ela aproveita para sair mais cedo, para relaxar um pouco antes da noite das garotas que Didi havia preparado.
Em sua casa, passa direto para o
banho e novamente se deixa levar pela água. Inclina a cabeça para trás e deixa
as gotas caírem em seus olhos e escorrerem por todo seu corpo. Sente um fluxo
que a relaxa. A água que entra por seus ouvidos bloqueia os sons por um
instante. Mais uma vez se desconecta da realidade: “Um céu azul lindo, sem
nuvens. O vento leva seus cabelos loiros e longos. Pássaros cantando e voando
por árvores de todos os tamanhos e cores. Está feliz, nada parece poder
estragar esse momento... Sorrisos de alegria interrompidos por um forte vento
que traz uma nuvem densa que escurece tudo. Pássaros negros, de repente saem voando,
causando um som de asas tenebroso.” – A campainha toca:
— Sammy! – Grita e dá golpes na
porta – Sou eu, Diana. Você está pronta?
Percebe que se perdeu nesse
devaneio. “O que teria sido isso”, pensa. Será uma memória de infância? Isso a
deixou inquieta. Sai do chuveiro e se enrola em uma toalha, gritando:
— Sim, já estou indo – Corre até a
porta e abre, destrancando todas as fechaduras. – Entra, ainda tenho que me
vestir. Estava tomando um banho e me distraí. Perdi a noção do tempo. Fique à
vontade. – Caminha até seu quarto, ao que Diana a segue:
— Não tem problema. Eu cheguei mais
cedo do que o combinado. Sabe o que eu queria? Aquele seu brinco grande que eu
adoro, me empresta para usar hoje?
— Claro! Está ali na gaveta de baixo
no criado mudo.
—
Essa? Ah! Aqui está. Eu amo esse brinco! – Observa um porta-retrato por baixo
de papéis. – Quem são esses na foto? Você e seus pais?
Samantha se surpreende com a
pergunta pois não queria que ninguém visse aquela foto:
— Sim. Somos eu e meus pais.
— Wow, que lindos! Seu pai é mesmo
um pedaço de mau caminho. E sua mãe... ela era linda. Você se parece muito com
ela! Oh! E veja como você era uma gracinha! Que idade tinha aqui?
Samantha termina de vestir suas
calças, se aproxima, e delicadamente retira o porta-retrato das mãos de Diana.
Olha e pensa por uns segundos:
— Cinco, seis anos. Eu acho. Não me
lembro. Nem me lembro do dia em que tiramos essa foto. – Abaixando-se coloca-o
novamente na gaveta e esconde com alguns papeis. – Vamos? Estou pronta.
— Sim, claro. Deixe-me só colocar os
brincos.
— A propósito, pode ficar com eles.
Já que gosta tanto! Meu presente para você.
— Sério?! Não posso aceitar. Eles
eram da sua mãe!
— Sim, mas eu não os uso. E você
gosta tanto...
— Ah amiga. Muito obrigada. –
Dando-lhe um abraço bem forte. – Obrigada de coração. Amo você!
— Eu também te amo. Você sabe disso.
Vamos?
— Sim! Vamos com o meu carro.
— Ok!
— Vou te levar nesse barzinho que
descobri semana passada. – Continuam enquanto caminham até o elevador. –
Ambiente bem tranquilo e agradável. Música ambiente suave. Às vezes até uma
banda cover. Você vai gostar.
— Ótimo! Porque ambiente barulhento
é a última coisa que preciso hoje.
— O que houve? Aconteceu alguma
coisa no trabalho? Alguma coisa saiu errada na reunião?
— Não. Foi tudo perfeito. Fechamos negócio
com o cliente. Mas... me sinto meio aérea ultimamente. Aqueles meus sonhos
voltaram, só que agora os sinto de maneira mais real. Como se não soubesse
direito o que é a realidade e o que ainda é sonho.
— Ah! Você provavelmente só está
estressada. Você mesma disse que esteve ocupada nesse projeto por semanas. Já
falou com sua terapeuta?
— Ainda não. Vou falar com ela na
segunda. Mas você tem razão. Deve ser só estresse mesmo...
— É sim, você vai ver. Vai ficar
tudo bem. Não se preocupe. Nem vamos falar nisso agora. Vamos nos divertir. –
Então elas entram no carro e se dirigem até o local.
O local parece ser mesmo tranquilo. E
realmente é dia de banda cover, mas Samantha não os conhece. Entra observando
os detalhes: pessoas sentadas junto ao bar, conversando, tomando seus drinks,
algumas dançando... Sempre foi observadora. Nada lhe escapa de diante de seus
olhos. Tudo parece tranquilo. Não está barulhento demais. Ainda não era a hora
do show. As duas se aproximam do balcão e pedem suas bebidas.
— E então? O que acha? O lugar é
bom, né? Não está muito cheio, a música é boa...
— Sim, o ambiente é bom! –
observando tudo a sua volta.
— O que foi? Fala a verdade. Você
não gostou?
— Não, não é isso. É que antes de
você chegar eu tive um “sonho” no chuveiro. Agora isso não sai da minha cabeça.
— Ai amiga! Já disse que isso é só
estresse. Vai ficar tudo bem. E segunda você vai na terapeuta e tudo se
resolve. Não é?
— Não é assim tudo tão simples,
Diana. Essas coisas levam tempo. E já faz semanas que tenho esses sonhos.
— Eu sei que não. Mas estou te
falando... Vai ficar tudo bem! – Pega-a pela mão e puxa para a pista de dança.
– Vem vamos dançar. Essa música é legal.
— Não! Você tá louca? Morro de
vergonha.
— Vergonha de que? Ninguém nem está
prestando atenção. – Começa a dançar como faziam na adolescência, segurando nas
mãos de Samantha – Vamos, dança!!! – Que finalmente se entrega. Começam então a
pular e gargalhar sem importar-se com nada nem ninguém.
No
bar, o barman acena que seus drinks estão prontos. Elas voltam a sentar-se e a
tomá-los. Samantha percebe que atrás de Diana está sentado um homem suspeito.
Ele se destaca das outras pessoas, tem um olhar bastante sombrio. Isso lhe
chama atenção.
O encara profundamente. A música
agora parece distante. Em seu corpo a sensação é como em seu sonho. – “Por que
sinto que o conheço de algum lugar?” – Ele está olhando para frente, bebendo
seu drink, quando então move seus olhos e os fixa em Samantha, que o encara por
uns instantes.
— Sam? Sam?? SAMANTHA?!?!
— O que? – desviando o olhar do
homem estranho, se volta para sua amiga.
— Onde você esteve amiga? Por três minutos
você estava presente somente em corpo. Está tudo bem?
— Não sei. Alguma coisa muito
estranha sobre aquele homem. – Aponta. Diana olha para trás.
— Que homem?
Ao olhar novamente, percebe que ele
já não está. Um sentimento de pavor e dúvida a toma. “Onde terá ido? Quem era?”
– Se levanta e caminha apressada.
— Vou ao banheiro e já volto.
Se encara no espelho, buscando uma
resposta para o que acabara de sentir. Esses sonhos... serão realmente só isso.
Onde, quando e quem eram aquelas pessoas felizes e sorridentes? Será tudo isso
real? Uma memória? Um momento há muito vivido? Ou será apenas que estava
ficando louca. Seu reflexo se torna envelhecido, com se os anos tivessem passado,
e vê uma Samantha madura, com rugas, olheiras... Um ruído a faz retomar
consciência do agora. Não estava sozinha... Volta a visão para o espelho e vê a
mesma Samantha de sempre. Meio apagada e cansada, mas jovem e bela. Lava seu
rosto inclinando-se para baixo e volta tomada por outro susto maior ainda:
— O que você está fazendo? Faz dez
minutos que você veio para cá. O que aconteceu?
— Nada. Está tudo bem. Uma dor de
cabeça terrível me bateu agora. Me leva pra casa por favor? Preciso muito
relaxar e dormir.
— Tudo bem, vamos. Chegando lá, toma
um chazinho calmante e descansa. Amanhã você vai estar bem melhor.
— Sim. Vou fazer isso.