Capitulo 1

Ofegante, com medo e cansada ela corre. Tudo à sua volta parece de tamanho extraordinário! Árvores altas com suas raízes pelo caminho dificultam a passagem. Uma voz masculina forte, ecoa: “Samantha! Samantha!” – Corre mais rápido, tenta chegar a uma saída. Está logo ali depois daquela árvore, mas não consegue alcançar. É como se o chão corresse pelos seus pés. A neblina é densa e a visão é confusa. É tudo tão estranho... Suas forças se esgotam. Um grito ecoa novamente: “Samantha!”. Já não lhe restam forças para continuar. Num ato corajoso, encara a figura escura, alta e sem rosto, que se aproxima. Com o susto, tropeça na raiz de uma das árvores e cai, batendo com a cabeça em uma pedra. A criatura a alcança e lhe agarra pelos braços...

Samantha então desperta, abrindo os olhos numa tomada de fôlego forte e sonorizada, suada e ofegante. A sensação é de pavor. Sente frio. Suas pernas e braços tremem, mas não por esse motivo, e sim pelo medo que sentira. Leva alguns segundos para dar-se conta de que está em sua cama, em sua casa. Ouve o despertador tocar. É seu celular com uma música instrumental em violoncelo. Fica ali, respirando fundo, esperando um alivio para aquela sensação horrível que pairava pelo seu corpo.

Ela aos poucos se recupera, leva as mãos ao celular e o silencia, mantendo-se na posição deitada. Pressiona a parte inferior das palmas das mãos sobre os olhos, dando mais uma respirada profunda e deslizando as mãos para cima, tirando os cabelos do rosto. Se senta na cama, calça seus chinelos e apoiando as mãos, suspira mais uma vez e pensa: “Esse sonho outra vez! Até quando?”

Se levanta e caminha até o banheiro. Diante do espelho, esfrega as mãos sobre os olhos mais uma vez se fixa em sua imagem refletida. Samantha é jovem, mas ultimamente noites mal dormidas a tem deixado com aparência ofuscada, sem cor e sem vida. Se admira por uns segundos e então enche as mãos de água e, inclinando-se, lava seu rosto. Ao se levantar, fixa atenção a seu reflexo mais uma vez, quando tem um flash de seu sonho: a criatura sombria, sem rosto, que a persegue. No sonho ela olha para trás, mas a sensação é que a vê o tempo todo. Pisca os olhos com força e desvia o olhar do espelho, saindo de diante dele. Tira seu pijama e entra numa ducha fria, onde fica parada debaixo d’água, como se isso fosse levar todo seu cansaço e estresse pelo ralo. Após um bom banho, se veste para trabalhar.

Como arquiteta de projetos, hoje tem uma reunião importante com um de seus clientes, para definir os últimos detalhes do último projeto que esteve realizando por semanas e então fechar negócio. Se preparou muito para esse dia, e precisa que tudo ocorra perfeitamente. Mas a noite anterior... os sentimentos eram intensos demais e pareciam não se dissolver.

“Eu preciso marcar uma consulta com Dra. Cinthia. Esses sonhos estão ficando cada vez piores. Já não sei mais como lidar com isso” – pensa, imaginando que isso soluciona todos seus problemas.

Enquanto veste seus sapatos, seu telefone toca. Ele ainda está no criado mudo ao lado de sua cama. Nem sequer o verificou desde a hora que acordou. Vai até ele, o pega e vê que sua melhor amiga, Diana, está chamando. Então, o atende:

— Oi Didi. Bom dia! – fala com uma voz distante, tentando parecer naturalmente simpática, disfarçando o fato de que havia ignorado suas mensagens a semana toda.

— Bom dia??? Não sei. Será? – diz com um pouquinho de raiva. – Eu te escrevi a semana toda. O que aconteceu que não me deu sinal de vida? Você me deixa preocupada, sabia? Você está bem?

— Oh Didi, me desculpe. A semana foi complicada, corrida. Com essa reunião de hoje – lembra que eu te falei? – não tive muito tempo de pensar em outra coisa!

            — Sim, você me falou! – responde com ar de decepção – mas pelo menos uma resposta né? Não custava nada!

            — Me perdoa, de verdade! Não foi intencional – se sente culpada, pois sim, havia sido...  Ignorou as mensagens que perguntavam como estava de propósito.

            — Tudo bem, está perdoada. Mas não faça mais isso, entendeu?

            — Ok! Ok! Pode deixar! – Sorri, sentindo-se um pouco mais aliviada de sua situação, ao perceber que tem alguém que ainda se preocupa.

            — Enfim, hoje é sexta e vamos sair tomar alguma coisa. E isso não é um convite. Estou te intimando. Eu passo na sua casa as oito.

            — Tá ok, ok, ok!  Vamos ver como o dia segue. Já estou atrasada e preciso sair para o trabalho. À medida que vou tendo tempo livre te escrevo.

            — Ok! Também estou a caminho do trabalho. Beijo.

            — Beijo! E desliga.

Então coloca o celular na bolsa e sai, tranca a porta e caminha pelo corredor até o elevador. Sua vizinha está parada em sua porta e lhe fixa os olhos de uma maneira bastante incomoda, como se a estivesse condenando por alguma coisa que havia feito. Passa diante dela:

— Bom dia! – mas não diz seu nome, pois não o sabe, ao que essa não lhe responde e mantém o olhar fixo.

A encara de volta por um tempo e continua andando, se voltando levemente para trás e então lhe dá as costas. Mais alguns passos, chega ao elevador e pressiona o botão. A porta não demora em abrir-se. Entra escolhe o piso do estacionamento, quando olha para fora e vê que sua vizinha ainda lhe encara com o mesmo olhar fixo insistentemente. A porta se fecha.

            No estacionamento, quando a porta do elevador se abre, as luzes, que deveriam acender-se automaticamente, não funcionam. Não está totalmente escuro, mas a visibilidade é fraca. Aciona então o alarme, para que isso lhe dê uma noção de onde está seu carro e assim possa caminhar até ele.

Se aproxima da porta e uma sombra parece tomar forma, como se de repente, alguém surgisse diante dela. Imediatamente se vê em seu sonho, quando olha para trás e está a criatura sem rosto, estirando a mão para agarrá-la. Abre a porta e entra no carro apressadamente e acende os faróis. Segura no volante com força, inclina a cabeça até ele e respira fundo. “Eu devo estar enlouquecendo, não é possível!” – pensa, com certa preocupação, reforçando em sua mente a ideia de marcar uma consulta com Dra. Cinthia.

            Dirige até o prédio onde fica o escritório Walker & Co. Architects, onde trabalha já há quase 6 anos, mas antes, compra seu café. Afinal está em jejum ainda, e como o dia promete ser intenso, necessita de pelo menos algo que a mantenha desperta e atenta. Entra na cafeteria e caminha até o balcão. A vendedora já a conhece por nome e já sabe o que ela sempre leva.

            — Bom dia Sam, como você está? – Cumprimenta Cindy sorridente e simpática, enquanto já começa a preparar o seu café.

            — Bom dia Cindy, estou bem, obrigada. E você? – responde retirando os óculos escuros.

            — Muito bem, obrigada. – Mantendo o sorriso – Quais os planos para essa sexta-feira? Grande apresentação na ponta da língua?

            — Wow, você ainda se lembra, mesmo depois de uma semana? Sim, espero estar bem preparada. Nada pode dar errado hoje.

Se sente incomodada com o ambiente. As pessoas falando alto, sons de carros do lado de fora...  O cheiro de café parece mais forte. Nunca tinha sido assim. Não entende o que mudou. Olha para os lados, pessoas sentadas nas mesas, comendo e tomando café, sente que algo está diferente, como se alguém a estivesse observando. Se distrai nesse momento e não ouve quando Cindy chama teu nome.

— Sam?? Oooi! Está tudo bem? – Pergunta sem aquele sorriso de antes, em tom preocupado, pois a notou desligada da realidade por alguns segundos.

— Ah! sim, sim, está tudo bem. – Responde pegando o café e uma croissant das mãos de Cindy. – Está tudo bem, obrigada! Coloca os óculos escuros novamente e sai, e então caminha até o edifício onde trabalha, apenas meia quadra dali.

Ao entrar então na recepção, retira os óculos escuros:

            — Bom dia, Patrick – Cumprimenta o segurança do prédio.

            — Bom dia, Dona Samantha – Responde, mantendo a postura ereta, olhando para ela e meneando a cabeça em sinal de cumprimento.     

Se dirige ao elevador e entra. O mesmo encontra-se vazio. Respira fundo, aliviada daquela sensação que não sabia explicar. “A noite passada foi realmente tensa” – pensa – “algo está me deixando distraída! Tenho que me concentrar!”

            Ao chegar no andar 17 sai do elevador diretamente na área da recepção do escritório, bem diante da recepcionista, que a recebe de maneira meio rude:

            — Você está atrasada! Donald já perguntou por você hoje!

            — Bom dia para você também, Karen. Como você está? – Sem deixar que ela responda, continua: — Eu estou ótima, muito obrigada! Vou para minha sala, e se Donald perguntar novamente por mim, pode dizer para ele onde me encontrar, por favor!

Caminha até sua sala e se senta. Colocando o projeto sobre a mesa, apoia a cabeça sobre as mãos, suspira e deslisa os cabelos para trás. Olha para a papelada e tenta focar no que fazer em seguida. O som do interfone quebra o silêncio ensurdecedor ao qual se encontrava e a traz para a realidade que por um instante havia se desconectado. Era Donald, pedindo que fosse à sua sala com o projeto em mãos para repassarem mais uma vez todos os detalhes.


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