Capitulo 1
Se levanta e caminha até o banheiro. Diante do espelho, esfrega as mãos sobre os olhos mais uma vez se fixa em sua imagem refletida. Samantha é jovem, mas ultimamente noites mal dormidas a tem deixado com aparência ofuscada, sem cor e sem vida. Se admira por uns segundos e então enche as mãos de água e, inclinando-se, lava seu rosto. Ao se levantar, fixa atenção a seu reflexo mais uma vez, quando tem um flash de seu sonho: a criatura sombria, sem rosto, que a persegue. No sonho ela olha para trás, mas a sensação é que a vê o tempo todo. Pisca os olhos com força e desvia o olhar do espelho, saindo de diante dele. Tira seu pijama e entra numa ducha fria, onde fica parada debaixo d’água, como se isso fosse levar todo seu cansaço e estresse pelo ralo. Após um bom banho, se veste para trabalhar.
Como arquiteta de projetos, hoje
tem uma reunião importante com um de seus clientes, para definir os últimos
detalhes do último projeto que esteve realizando por semanas e então fechar
negócio. Se preparou muito para esse dia, e precisa que tudo ocorra perfeitamente.
Mas a noite anterior... os sentimentos eram intensos demais e pareciam não se
dissolver.
“Eu preciso marcar uma consulta com
Dra. Cinthia. Esses sonhos estão ficando cada vez piores. Já não sei mais como
lidar com isso” – pensa, imaginando que isso soluciona todos seus problemas.
Enquanto veste seus sapatos, seu
telefone toca. Ele ainda está no criado mudo ao lado de sua cama. Nem sequer o
verificou desde a hora que acordou. Vai até ele, o pega e vê que sua melhor
amiga, Diana, está chamando. Então, o atende:
— Oi Didi. Bom dia! – fala com uma
voz distante, tentando parecer naturalmente simpática, disfarçando o fato de
que havia ignorado suas mensagens a semana toda.
— Bom dia??? Não sei. Será? – diz com
um pouquinho de raiva. – Eu te escrevi a semana toda. O que aconteceu que não
me deu sinal de vida? Você me deixa preocupada, sabia? Você está bem?
— Oh Didi, me desculpe. A semana
foi complicada, corrida. Com essa reunião de hoje – lembra que eu te falei? –
não tive muito tempo de pensar em outra coisa!
— Sim, você me falou! – responde com
ar de decepção – mas pelo menos uma resposta né? Não custava nada!
— Me perdoa, de verdade! Não foi
intencional – se sente culpada, pois sim, havia sido... Ignorou as mensagens que perguntavam como
estava de propósito.
— Tudo bem, está perdoada. Mas não
faça mais isso, entendeu?
— Ok! Ok! Pode deixar! – Sorri,
sentindo-se um pouco mais aliviada de sua situação, ao perceber que tem alguém
que ainda se preocupa.
— Enfim, hoje é sexta e vamos sair
tomar alguma coisa. E isso não é um convite. Estou te intimando. Eu passo na
sua casa as oito.
— Tá ok, ok, ok! Vamos ver como o dia segue. Já estou atrasada
e preciso sair para o trabalho. À medida que vou tendo tempo livre te escrevo.
— Ok! Também estou a caminho do
trabalho. Beijo.
— Beijo! E desliga.
Então coloca o celular na bolsa e
sai, tranca a porta e caminha pelo corredor até o elevador. Sua vizinha está
parada em sua porta e lhe fixa os olhos de uma maneira bastante incomoda, como
se a estivesse condenando por alguma coisa que havia feito. Passa diante dela:
— Bom dia! – mas não diz seu nome,
pois não o sabe, ao que essa não lhe responde e mantém o olhar fixo.
A encara de volta por um tempo e
continua andando, se voltando levemente para trás e então lhe dá as costas.
Mais alguns passos, chega ao elevador e pressiona o botão. A porta não demora
em abrir-se. Entra escolhe o piso do estacionamento, quando olha para fora e vê
que sua vizinha ainda lhe encara com o mesmo olhar fixo insistentemente. A
porta se fecha.
No estacionamento, quando a porta do
elevador se abre, as luzes, que deveriam acender-se automaticamente, não funcionam.
Não está totalmente escuro, mas a visibilidade é fraca. Aciona então o alarme, para que isso lhe dê uma noção de onde
está seu carro e assim possa caminhar até ele.
Se aproxima da porta e uma sombra
parece tomar forma, como se de repente, alguém surgisse diante dela. Imediatamente
se vê em seu sonho, quando olha para trás e está a criatura sem rosto,
estirando a mão para agarrá-la. Abre a porta e entra no carro apressadamente e
acende os faróis. Segura no volante com força, inclina a cabeça até ele e
respira fundo. “Eu devo estar enlouquecendo, não é possível!” – pensa, com
certa preocupação, reforçando em sua mente a ideia de marcar uma consulta com
Dra. Cinthia.
Dirige até o prédio onde fica o
escritório Walker & Co. Architects, onde trabalha já há quase 6 anos, mas
antes, compra seu café. Afinal está em jejum ainda, e como o dia promete ser
intenso, necessita de pelo menos algo que a mantenha desperta e atenta. Entra
na cafeteria e caminha até o balcão. A vendedora já a conhece por nome e já
sabe o que ela sempre leva.
— Bom dia Sam, como você está? –
Cumprimenta Cindy sorridente e simpática, enquanto já começa a preparar o seu
café.
— Bom dia Cindy, estou bem,
obrigada. E você? – responde retirando os óculos escuros.
— Muito bem, obrigada. – Mantendo o
sorriso – Quais os planos para essa sexta-feira? Grande apresentação na ponta
da língua?
— Wow, você ainda se lembra, mesmo
depois de uma semana? Sim, espero estar bem preparada. Nada pode dar errado
hoje.
Se sente incomodada com o ambiente.
As pessoas falando alto, sons de carros do lado de fora... O cheiro de café parece mais forte. Nunca
tinha sido assim. Não entende o que mudou. Olha para os lados, pessoas sentadas
nas mesas, comendo e tomando café, sente que algo está diferente, como se
alguém a estivesse observando. Se distrai nesse momento e não ouve quando Cindy
chama teu nome.
— Sam?? Oooi! Está tudo bem? –
Pergunta sem aquele sorriso de antes, em tom preocupado, pois a notou desligada
da realidade por alguns segundos.
— Ah! sim, sim, está tudo bem. –
Responde pegando o café e uma croissant das mãos de Cindy. – Está tudo bem,
obrigada! Coloca os óculos escuros novamente e sai, e então caminha até o
edifício onde trabalha, apenas meia quadra dali.
Ao entrar então na recepção, retira
os óculos escuros:
— Bom dia, Patrick – Cumprimenta o
segurança do prédio.
— Bom dia, Dona Samantha – Responde,
mantendo a postura ereta, olhando para ela e meneando a cabeça em sinal de
cumprimento.
Se dirige ao elevador e entra. O
mesmo encontra-se vazio. Respira fundo, aliviada daquela sensação que não sabia
explicar. “A noite passada foi realmente tensa” – pensa – “algo está me
deixando distraída! Tenho que me concentrar!”
Ao chegar no andar 17 sai do
elevador diretamente na área da recepção do escritório, bem diante da
recepcionista, que a recebe de maneira meio rude:
— Você está atrasada! Donald já
perguntou por você hoje!
— Bom dia para você também, Karen.
Como você está? – Sem deixar que ela responda, continua: — Eu estou ótima, muito
obrigada! Vou para minha sala, e se Donald perguntar novamente por mim, pode
dizer para ele onde me encontrar, por favor!
Caminha até sua sala e se senta. Colocando
o projeto sobre a mesa, apoia a cabeça sobre as mãos, suspira e deslisa os
cabelos para trás. Olha para a papelada e tenta focar no que fazer em seguida. O
som do interfone quebra o silêncio ensurdecedor ao qual se encontrava e a traz
para a realidade que por um instante havia se desconectado. Era Donald, pedindo
que fosse à sua sala com o projeto em mãos para repassarem mais uma vez todos
os detalhes.
